Ano IV

Corpo morto…

sexta-feira abr 5, 2013

Super Nada e Riscado: Corpo morto, corpo resignado

Ainda que seja tentador dizer que Super Nada é um primo, um desdobramento, um retrato semelhante a Riscado, equiparar as motivações do filme de Rubens Rewald e Rossana Foglia ao de Gustavo Pizzi é deixar de investir nas sutilezas, detendo-se ao mais acessível de ambas as histórias: o fato de terem como protagonistas atores em busca da grande chance, mas que se viram como podem enquanto a virada na vida é apenas um sonho, miragem distante.

Pois já de cara há a diferença dos protagonistas. Bianca é certamente uma grande atriz, por ora amputada criativamente por um sistema de produção que relega ao relento artistas engajados numa produção mais qualificada. Seria Guto um ator top de linha? Não há certeza. Marat Descartes, que dá corpo e vida ao personagem, é sim um grande ator, mas Guto está cercado, em Super Nada, por uma nuvem de ambiguidades que embaralha os porquês da sua vida ainda mambembe.

No primeiro plano de Super Nada, Guto é apresentado como um corpo morto, anônimo, estirado numa rua movimentada de metrópole. No plano seguinte saberemos se tratar de uma pegadinha boboca de televisão. Para além do efeito esconde-revela, resta a leitura, conforme o filme caminha, de que esse corpo morto representa um homem resignado.

Bianca, por outro lado, é um corpo que resiste. É registrada pela câmera com melancolia nos momentos em que é oprimida (andar pelas ruas do Rio de Janeiro vestida de Alice zumbi distribuindo panfletos de uma festa, sofrer assédio moral quando é contratada para imitar Marilyn Monroe no aniversário de um senhor). Afora as imagens “documentais” quando Bianca encarna algum personagem, há os registros íntimos, afetivos. Em imagens com textura de Super-8 ou digital vagabundo, ela sorri, nos confronta com um olhar desafiador, mira o horizonte (porque há um). Também ensaia – e rouba a cena – para uma peça de dramaturgia aparentemente sofisticada.

Guto consegue “o teste da minha vida”: uma participação especial para um programa obscuro estrelado por Zeca (Jair Rodrigues), um comediante decadente – um hipotético spin off do Zorra Total. Bianca também encontra a grande chance: protagonizar um longa-metragem metalinguístico dirigido por um francês cuja dramaturgia ficcional é inundada pelo real. Apenas com tal caracterização do que seria o turning point para cada personagem torna-se claro onde Bianca e Guto podem/querem chegar com suas carreiras.

A linha da vida de Bianca permanece em linha reta, sobe com o convite para o filme e cai vertiginosamente quando o castelo de areia desmorona. A de Guto avança e retrai, tornando ainda mais ambíguas as opiniões que o espectador é convidado a ter sobre o personagem. Tal dúvida – seria o personagem bom e esforçado o suficiente? – é componente fundamental para que Super Nada não seja apenas um filme sobre um ator, mas a história de um cara que é como eu, você e todos nós.

Enquanto Bianca é aquela atriz da tela, bastante familiar para quem vive, de alguma maneira, próximo ao fazer artístico, Guto é, além de retrato de quem vive as agruras do circuito off teatral, um arejamento para outros níveis de identificação. Guto poderia ser eu ou você. Bianca poderia ser a amiga daquele conhecido que encontrei no bar ontem à noite.

Bianca não tem necessariamente um antagonista. É uma personagem que representa um micro-universo em colizão com o mundo estabelecido, oficial. Guto, ao contrário, tem um antagonista: ele é Zeca, o humorista decadente, herói e vilão, amoroso e escroto, peito aberto e manipulador, carismático e carrancudo. Novamente: mesmo tendo um rosto como Jair Rodrigues, facilmente conhecido, interpretando-o, Zeca carrega uma sedutora aura de guy next door.

A presença de Jair e o conflito gerado com o personagem de Marat é quiçá o principal componente a construir um nível de identificação de Super Nada com o espectador: mais próximo, baseado na projeção não dos eventos do personagem (testes, amigos descolados do teatro), mas de suas incertezas. Se o filme de Rewald/Rossana incentiva a dúvida – Guto é bom? Zeca é vilão? –, o de Pizzi é mais plano e direto no que pensar sobre Bianca, seus conflitos e Riscado: o mundo é um lugar tremendamente injusto.

Vale ressaltar que Super Nada é uma comédia (depressiva, como bem definiu Tales Ab'Saber, mas ainda assim uma comédia) com idas e vindas, avanços e retrocessos ao especular sobre o que é sucesso e fracasso. Riscado é uma tragédia: o sucesso surge como miragem que, ao se esfacelar, destroi o mundo de Bianca, até então sustentado no fio da navalha.

Num momento de franqueza absoluta, Zeca atesta: “Não tá fácil pra ninguém”. No fim do filme Guto, aliviado, olha para o horizonte. Se algum personagem de Riscado chegasse perto de Bianca e dissesse que “não tá fácil pra ninguém”, certamente levaria um sopapo ou, no mínimo, um convite para ir àquele lugar.

Heitor Augusto

© 2016 Revista Interlúdio - Todos os direitos reservados - contato@revistainterludio.com.br