Ano IV

Tiradentes – balanço

sábado fev 4, 2012

O Homem Que Não Dormia, de Edgard Navarro

Tiradentes, território de bravos veteranos

Por Sérgio Alpendre

Costuma-se dizer que Tiradentes é o lar do cinema jovem. Novos realizadores sentem-se parte de uma cena, um movimento, um momento especial de renovação do cinema brasileiro. Parte da crítica e dos jornalistas elogia quase tudo que passa por Tiradentes, como se o crivo do festival fosse determinante e por lá víssemos o que realmente importa dentro do cenário cinematográfico brasileiro.

Na verdade, a invenção e a renovação passam longe do experimentalismo arbitrário desse cinema jovem que percorre alguns festivais. O que existe é a ideia de auto-blindagem da experimentação, de uma pretensa vanguarda do cinema brasileiro que nada faz além de repetir velhos cacoetes da videoarte. Tudo se justifica, porque afinal estão experimentando, expandindo a linguagem. E quem problematiza o trabalho deles é porque não entendeu ou quer posar de malvado. E na verdade é muito mais difícil trabalhar com dramaturgia, clássica ou moderna, do que com o abstracionismo ilimitado que muitos querem buscar.

O efeito disso é que os filmes verdadeiramente inventivos são os dirigidos por veteranos, e limitados por uma dramaturgia: Helena Ignez (Luz nas Trevas), Júlio Bressane (Cleópatra), Carlos Reichenbach (Falsa Loura), Paulo Cezar Saraceni (O Gerente). Esses filmes salvaram festivais passados. Em Tiradentes 2012, Edgard Navarro e Alberto Salvá com, respectivamente, O Homem Que Não Dormia e Na Carne e na Alma, mostraram um cinema pulsante e revigorante, como não vemos em nenhum filme dirigido por jovem, à exceção de O Grão, de Petrus Cariry.

Navarro continua de onde Superoutro (1989), obra-prima do média-metragem brasileiro, havia parado. O cineasta baiano demorou dezesseis anos para realizar seu primeiro longa, o decepcionante Eu Me Lembro. Agora, com O Homem Que Não Dormia, volta a provocar o cenário modorrento do cinema brasileiro com a história de alguns habitantes de uma pequena cidade: um padre que vai aos búzios, dois cegos que se tocam para ter prazer (segundo Navarro, uma homenagem a Luis Buñuel), jovens sem perspectivas sob a sombra do coronelismo, uma mulher fogosa e liberal, além dos louquinhos folclóricos de plantão. Trata-se de um filme para o qual cabem inúmeros adjetivos, por vezes até antagônicos. É desleixado e rigoroso dependendo do momento, delirante e desconexo, mas bem construído (já que os delírios e desconexões estão ligados aos personagens malucos, às lembranças e às histórias contadas). É instigante, referencial, safado, despudorado.

Na Carne e na Alma, de Alberto Salvá

Na Carne e na Alma, do recém-falecido Alberto Salvá, vai até onde nenhum jovem diretor ousou chegar perto ultimamente, e o faz com um raro domínio narrativo. Um jovem estudante de Niterói se apaixona perdidamente por uma garota temperamental da zona sul do Rio de Janeiro, e se entrega a ela de todas as formas. Pretende tomar contato com tudo que pertença a ela, até mesmo as excreções. Em uma cena chocante, ele deita num banheiro público e pede para que ela urine em cima dele. Em outra, tira o absorvente dela e esfrega o sangue em seu peito. Mais adiante, vai ao vaso sanitário para admirar as fezes dela. E isso é só uma parte de tudo que acontece nessa dedicação tocante de um homem a uma mulher. É um filme que deve muito mais à liberdade de Marco Ferreri do que à pornochanchada brasileira.

Ricardo Miranda, outro veterano, apareceu com o instigante Djalioh. O diretor conseguiu a proeza de fazer um filme experimental centrado nas boas interpretações de suas atrizes principais, Barbara Vida e Mariana Fausto. Baseado em um conto de Gustave Flaubert, Djalioh é enigmático e poético na medida certa. E tem algumas cenas antológicas, como a dos vestidos girando e as que trabalham com reflexos.

Ainda engatinhando, o cinema jovem

E os jovens diretores, o que puderam oferecer na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes? Quais são suas histórias, quais são seus limites?

Dentro da Mostra Aurora, pudemos sentir que a diversidade continua dando as caras no cinema brasileiro recente, o que é bom. Tivemos sete longas, com um pouco de alguns sintomas: dos deslumbramentos com o cinema europeu (As Horas Vulgares) ao filme de referências urbanas e fassbinderianas (Corpo Presente), da releitura tortuosa do cinema marginal (Strovengah – Amor Torto) ao documentário observacional sobre o universo dos concursos para Miss (Entorno da Beleza), do inconformismo político de tom cômico (A Cidade é uma Só?) ao experimentalismo arbitrário e inconsequente (Balança Mas Não Cai), passando ainda pelo retrato do descaso urbano que encontra triste paralelo na realidade recente (HU).

Dois desses novos longas são DocTVs esticados: HU, de Pedro Urano e Joana Traub Cseko, e A Cidade é uma Só?, de Adirley Queirós. Foram justamente os filmes que ganharam os prêmios dos dois juris convocados, o juri jovem (que premiou HU) e o júri da crítica (que preferiu A Cidade é uma Só?). Felizmente, a necessidade de aumento na duração não os prejudicou. Mas não é o prêmio conquistado que os transformará automaticamente em grandes filmes. É uma afirmação um tanto óbvia, mas ainda é preciso fazê-la.

Se HU tem analogias banais entre as entranhas de pacientes e as do hospital da UFRJ onde se passa todo o filme, certamente há achados estéticos em sua construção. Não necessariamente nas split-screens (efeito de que Brian De Palma gostava tanto), que são quase todas meio bobas. Uma delas, porém, é precisa: a que mostra um lado se fundindo ao outro, antecipando a implosão do final. Os achados estão em algumas composições de espaço com a câmera fixa e no impressionante registro da implosão final da perna seca do Hospital (uma ala que estava desativada há anos, sem nunca ter sido plenamente utilizada).

A Cidade é Uma Só?, de Adirley Queirós

A Cidade é uma Só? é do tipo que provoca gargalhadas de adesão da plateia, graças a um dos personagens mais carismáticos do cinema brasileiro recente, o do candidato político da Ceilândia, Dildu. A campanha de Dildu, personagem melancólico em seu carisma e peculiaridade, e ao mesmo tempo hilário em sua simplicidade, é mesmo o forte do filme. Mas existem outras coisas a nos intrigar, desde a desapropriação de moradores que estavam instalados no plano piloto de Brasília (aqueles que ajudaram a construir a novacap e depois foram expulsos para uma cidade-satélite no início dos anos 1970) até a tentativa de regravação de um jingle da época sobre a cidade e a desapropriação.

Entre os outros cinco longas da Mostra Aurora, o único que consegue um empate técnico com A Cidade é uma Só? é Corpo Presente, de Paolo Gregori e Marcelo Toledo. Neste longa, a junção de três histórias passadas na cidade de São Paulo retrata a força (e a fraqueza) dos corpos de trabalhadores e sonhadores, que vivem em constante embate com a paisagem urbana e suas pressas e frustrações. Com uma cena final pungente e uma montagem inteligente, Corpo Presente merecia ter saído como o outro premiado da mostra competitiva.

Balança Mas Não Cai, de Leonardo Barcelos, por outro lado, é o mais fraco. Traz um experimentalismo arbitrário e fusões de mau gosto no relato de um prédio condenado em Belo Horizonte. Como Heitor Augusto escreveu alhures, compõe com HU a dupla de “filmes de prédios” exibidos em Tiradentes.

Melhor, mas não completamente satisfatório, é o documentário sobre os concursos para eleger a Miss Distrito Federal: Entorno da Beleza, de Dácia Ibiapina. Com uma câmera que remete à do grande documentarista norte-americano Frederick Wiseman em sua paciência e rigor na captação das cenas, há certo encanto em sua observação. Mas podia ser um média-metragem, de uns 40, 45 minutos no máximo. O que me faz pensar na necessidade de se aumentar a visibilidade para médias, já que muitos acabam se alongando desnecessariamente e viram longas frouxos para participar de festivais.

Os outros dois longas da Aurora trazem tentativas mais ou menos interessantes de trabalhar com referências cinematográficas de outrora. Strovengah – Amor Torto, de André Sampaio, dialoga com a pornochanchada e com o cinema marginal, mas sua história, que envolve bonecos e um casal recluso – um autor assombrado por suas criações e uma mulher que gosta de tomar banho nua em uma pequena queda d’água -, é prejudicada pela direção, que abusa de angulações de câmera esquisitas (fazia tempo que eu não via contra-plongées tão bizarros como os deste filme). Uma grande decepção para quem conhece os bons curtas de Sampaio.

As Horas Vulgares, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, é bem forte no primeiro terço. O reencontro de amigos, o reestabelecimento de uma certa cumplicidade, as lembranças de noites memoráveis de porres e jazz. A forte relação com o cinema de Philippe Garrel (e por derivação, o de John Cassavetes) não incomoda. Por que não se poderia filmar histórias garrelianas em plena Vitória, capital do Espírito Santo? Por que não aceitar uma cena de dança derivada de Amantes Constantes, além de situações semelhantes às que vemos em filmes como O Nascimento do Amor e Les Baisers des Secours? Na verdade, os diretores fazem de Vitória uma espécie de limbo por onde flanam almas passantes. Esses personagens estão desconectados da realidade e de nosso tempo. Vagam numa época em que computadores e celulares estão ausentes, em busca de algo que mal sabem o que é. O melhor de As Horas Vulgares vem dessa indefinição estabelecida já de início. É realmente uma pena que a força dos primeiros quarenta minutos seja diluída parcialmente por alguns diálogos excessivamente literários e um ar blasé que domina a jornada desses amigos – todos belos, perdidos e artistas, Rimbauds, Van Goghs e Tim Buckleys da contemporaneidade – que se reencontram uns aos outros, mas não reencontram suas motivações vitais.

Olhares, vertentes e homenagens

Fora da mostra competitiva pudemos ver longas interessantes como Hoje, de Tata Amaral, que mostra Denise Fraga como a mulher madura assombrada por um fantasma do passado, As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro, que capta os ensaios para um tradicional ritual feminino do Alto Xingu (MT), Girimunho, de Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina, mais um retrato plasticamente belo de personagens do sertão mineiro, e Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, que faz uma inteligente conexão de músicas bregas dos anos 70 e 80 com vidas que são tocadas por elas. Vimos, também, a irregular tentativa de José Eduardo Belmonte de fazer cinema comercial de qualidade, com Billi Pig, cujo maior trunfo é promover a estreia de Grazi Massafera no cinema.

É preciso dizer ainda que o esperado Augustas, o primeiro longa de ficção de Francisco Cesar Filho, decepciona por ser um irregular (ainda que afetivo e tocante em alguns momentos) retrato da mítica Rua Augusta, famoso ponto de encontro de São Paulo. No enredo, Mário Bortolotto vive Alex (inspirado no jornalista e músico Alex Antunes), um homem que vaga pela rua atrás de prostitutas, aventuras exóticas e de muita cerveja. O filme, inspirado no romance A Estratégia de Lilith, de Antunes, é bem-sucedido ao passar para o espectador o clima boêmio e errante provocado pelo personagem. Sua maior fraqueza é que se percebe claramente em sua estrutura a tentativa de montar um longa de um material que parece não permitir tamanha duração. Daí a necessidade de se esticar algumas sequências e de incluir no início o curta-metragem Esta Rua Tão Augusta (1969), de Carlos Reichenbach, como uma homenagem. A afetividade e a beleza de alguns planos, contudo, permanece, e nos faz pensar como seria uma versão mais enxuta de Augustas, ou mesmo uma montagem para longa que trabalhe melhor com sua irregularidade e com as dificuldades narrativas (são diversas as histórias contadas no livro). Há sobretudo ternura por uma geração, a dos anos 1980, que se viu naufragar sob o domínio nefasto do yuppie-mauricismo (que se tornou inevitável a partir de 1986/87). São bem bonitos os dois planos que mostram uma prostituta desfilando pela calçada ao som de “Atropelamento e Fuga” (versão da banda paulistana dos anos 80 Akira S & As Garotas Que Erraram, que tinha Alex Antunes no vocal), assim como alguns diálogos entre Alex e a fauna que habita a região. Mas era possível esperar mais do diretor de Rota ABC e A Era JK.

Graças à homenagem a Selton Mello, o cinéfilo presente em Tiradentes pode conhecer o desigual Billi Pig, de José Eduardo Belmonte; e além disso (re) ver o superestimado Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho; o fraco O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia; e o excelente A Erva do Rato, de Júlio Bressane.

Bressane, por sinal, um dos veteranos apontados no início do texto, aqui mencionado com outro filme, igualmente memorável. O que confirma a superioridade de quem está na estrada há décadas sobre a celebração do novo.

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