Ano IV

Crô – O Filme

sexta-feira nov 29, 2013

Crô – O Filme (2013), de Bruno Barreto

Quando O Segredo de Brokeback Mountain construiu sua trajetória nos cinemas brasileiros uma parte significativa do público gay abraçou o filme como sendo seu, emocionando-se com a tragédia de Jack e Ennis, sentindo-se representado com tal obra.

À parte das qualidades evidentes que o filme tem, o que nós, gays, não percebemos – ou preferimos não perceber à época – é o quão heteronormativo é o filme de Ang Lee. Recapitulemos: Jack é morto como um animal a golpes de foice que assistimos em flashes; Já Ennis experencia um outro tipo de morte, a da alma, prendendo-se numa relação de fachada com uma mulher.

No olhar do filme, Jack e Ennis – e, em última instância, o homossexual – são pobres vítimas que tentam lutar contra essa atração que se mostra incontornável: o desejo por outro homem. O gay como um sofredor, fraco e dividido, vítima da própria sexualidade remonta longe e tem em Meu Passado me Condena um de seus exemplos mais fortes – não à toa o título original é Victim. Em Brokeback Mountain os dois únicos personagens gays do filme morrem e o mundo continua seguindo sua ordem “normal”. Uma coisa é repetir o discurso da vitimização em 1961, caso do filme de Basil Dearden. Outra é fazer o mesmo em 2005, como o de Lee.

Chegamos, pois, a Crô – o Filme, contraditoriamente heteronormativo e que, ao contrário da obra de Ang Lee, não tem quase nada de cinema (Ana Maria Braga, Ivete Sangalo e Gaby Amarantos não são participações especiais, mas casos assombrosos de product placement, ou marketing indireto). No longa de Bruno Barreto entra ainda um outro componente: a comédia sórdida.

A contradição: Crô, o protagonista, é gay. Como um filme protagonizado por um gay afetadíssimo pode ser heteronormativo? Mantendo-o marginalizado, reafirmando-o como uma exceção, tratando-o como um idiota fracote, sufocando qualquer janela para a diversidade. No filme não há um traço sequer de humor genuinamente queer a despeito do protagonista. Não há no personagem desejo algum de rachadura, de provocação, de desafio à ordem, de inverter conceitos (feio/bonito, certo/errado, hetero/homo, bom gosto/mau gosto). A Divine de Jon Waters não é sequer um espectro no horizonte ideológico do filme.

Extrai-se qualquer componente potencial de provocação do personagem queer – some até mesmo o referir-se a si a e aos outros no feminino. Em vez de rirmos com o Crô como faríamos com uma Divine, com um José Sarria ou Tig Notaro, ri-se do Crô. Porque ele fala “engraçado”, porque desmunheca, porque não é viril como deve ser o macho. Resumindo: rimos de Crô porque ele é bicha. Está aí o “humor” do filme: rir de um personagem pelo simples fato de ele ser… bicha. E porque ele diz “Congela! Descongela!”. Que engraçado.

Há, porém, um outro componente sórdido que torna o filme perigosamente reacionário. Crô passa o tempo inteiro assediando seu motorista, que por sua vez reage sempre com violência verbal e ameaças. Ou seja, Crô – ou, se quisermos uma totalização, “essas bichas” – são perigosas, verdadeiras terroristas sexuais, ladrões de pinto alheio que, ao menor descuido, irão te atacar. Como não ser homofóbico nessa Gomorra cotidiana, com essas terroristas à solta? Só resta, pois, ao macho se proteger, seja com a ameaça verbal (“Que isso? Te dei liberdade?” ou “Você me respeita que sou macho!”) ou física – a lâmpada na cabeça.

Crô fecha as portas para um boy magia que o ama e abre para o tal motorista que não o quer. O velho chavão da conversão (“Fulano diz que é hetero, mas é porque ainda não me conhece” ou “Essa aí é sapatão, mas espera eu chegar no pedaço”). A despeito da tentativa de humor, Crô – o filme veio direto das trevas. Covarde, não tem sequer a coragem de realmente carnavalizar no final, romper as amarras.

“É preciso ter uma indústria de cinema no Brasil”, dizem os gurus do mercado. Que se dê rosto e forma a essa afirmação genérica: Crô – que não é só ruim, mas sim obscurantista – é um filme de mercado. Viva o progresso, criamos até um subgênero: a comédia homofóbica com bicha para toda a família.

Heitor Augusto

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