Ano VII

A Viagem

segunda-feira jan 21, 2013

 

A Viagem (Cloud Atlas, 2012), de Andy e Lana Wachowski e Tom Tykwer

É a bizarrice do ano, no mau sentido. Os irmãos Wachowski se uniram ao alemão Tom Tykwer para tentar fazer o Intolerância do século 21, quase um século depois que Griffith revolucionou a linguagem cinematográfica com seu épico de três horas. São várias histórias em várias épocas (passado, presente e futuro), com os mesmos atores trocando figurinos, penteados, maquiagens e trejeitos, conforme a época em que estão.

Mas o que Griffith sabiamente fazia só no final (intensificar as trocas pela aceleração), o trio parada dura faz desde o início: picotar todas as histórias de maneira a passar de uma para outra rapidamente, com pouquíssimo tempo em cada época, criando uma dinâmica alucinada e febril. O resultado é semelhante ao que Michael Haneke cometeu em Código Desconhecido, só que pior. Estamos diante de um aparelho de TV, com alguém que não podemos ver mudando freneticamente de canal a todo instante. Ai de quem se interessar por alguma das histórias – o que é bem difícil, por sinal.

Em quase todas elas existe uma trama de suspense, com algo misterioso sendo perseguido ou defendido. A visão de futuro ora é derivada de Matrix, ora de alguma tese pós-apocaliptica. O retrato do passado é pior. Nele temos uma fotografia publicitária e situações colocadas para responder ao espectador de filme de arte – como a do músico erudito e seu ajudante. Em todo o filme temos diálogos bisonhos, que fazem os de As Aventuras de Pi (causadores de inúmeras reclamações) parecerem Shakespeare, ou Mankiewicz, para ficarmos na mesma arte. Fosse dos anos 1980, teria certamente trilha sonora de Andreas Wollenweider e Enya. Como é da segunda década dos anos 2000, época dada a misturas, a trilha é uma bagunça que iguala todas as épocas e histórias.

O filme começa com um velho (Tom Hanks com maquiagem pesada) contando histórias para os netos, o que lembra Flor de Pedra, obra-prima de Ptushko. Termina quando as histórias acabam, não antes da esperada lição de moral. Se há coragem ao filme para colocar situações adultas (sexo, suicídio, violência brutal) falta habilidade na amarração toda. É uma verdadeira bomba, e nem explode.

Sérgio Alpendre

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