Ano VII

Alice nas Cidades

segunda-feira set 3, 2012

Alice nas Cidades (Alice in den Städten, 1974), de Wim Wenders

Alice nas Cidades é o quarto longa-metragem de Wim Wenders, o seu primeiro grande filme e um dos melhores da carreira do cineasta alemão, hoje tão detratado por ter perdido a mão.

Filmado em preto e branco e em 16mm, a fotografia do filme dialoga bastante com a primeira experiência em longa de Wenders que foi Verão na Cidade. Como neste, o grande personagem do filme é a paisagem urbana e a forma como ela se apresenta ao olhar, e como e até que ponto ela se materializa em imagem. Mas Alice é um filme mais amplo, busca, mesmo que de maneira tateante, deslizante, um chão, uma história, raízes, ou uma imagem que se desdobre em uma história.

Phil inicia o filme vagando pelos Estados Unidos em busca desta história, mas só consegue fazer imagens, polaroides, bastante representativas de um mundo diluído pelo imediato, por uma experiência vazia de mundo, que se revela rapidamente e se esvai. Quando um menino pergunta a Phil, por exemplo, por que tira fotos, ele responde que é porque elas nunca mostram o que se viu. É esse desejo de uma experiência que seja um reflexo mais verdadeiro do mundo que move o personagem, não a busca de sentidos totalizantes, mas de histórias que sejam habitáveis num mundo que, cada vez mais, deixa de sê-lo.

A tão buscada história surgira então por acaso, em um encontro inesperado, quando depois de um rápido contato no guichê da companhia aérea, uma mãe, precisando resolver uma situação amorosa, deixa a filha Alice com Phil, dizendo que vai encontrá-los depois em Amsterdã. É ela, a mãe, no acaso e ocaso do seu arrebatamento amoroso, que vai propiciar a história que Phil buscava, ainda que ele só descubra isso no fim da jornada.

Sozinhos, os estranhos passarão a se entender, a se descobrir e a unir as identidades desgarradas – na foto que ela faz dele, essa fusão é bem clara pelo reflexo do rosto dela na foto dele -, ele um enjeitado pelo mundo e ela uma enjeitada pela mãe mundo. Sem mundo e sem mãe ambos partem dos EUA para Amsterdã e daí até outras cidades procurando um ponto de contato de Alice para com o mundo, um lugar onde ela possa ficar, onde possam se separar, visto que agora são ambos da mesma matéria.

A viagem, de maneira alegórica, representa algo bastante presente no início da carreira de Wenders, cineasta, é bom lembrar, do pós-guerra e, mais forte que isso, do novo cinema alemão do pós-guerra, ou seja, o sentimento de vagar vai revelar o não pertencimento a lugar algum, a falta de uma pátria, o sentimento de desraizamento.

Em Olhos não se Compram, Peter Buchka, ao analisar a obra de Wenders vai dizer que este filme vai reunir “pela primeira vez todos os motivos e temas que conferem autonomia à contribuição de Wenders dentro do novo cinema alemão: o desconforto nostálgico e ao mesmo tempo paralisante diante de uma realidade que restringe toda imaginação pessoal; a incapacidade de as pessoas alcançarem um bom entendimento entre si e, como desoladora compensação, a comunicação arbitrária (nos dois sentidos) e unilateral da mídia; as relações deterioradas entre homem e mulher e o expatriamento (…)”, além da relação, que Buchka vai chamar de profunda entre sonho, escrita e viagem.

Cada um destes pontos levantados por Buchka remetem imediatamente aos planos que Wenders constrói, porque, mais que uma história, uma trama, a matéria do filme é dada, toda, pelas imagens. Elas sintetizam o desejo e as frustrações dos personagens. E quando esta imagem se materializa como algo real, quando, por exemplo, Phil e Alice encontram a mesma casa da foto, casa que foi da suposta avô de Alice, a surpresa de ambos é geral – e nossa também. Concretiza-se ali a junção entre imaginário e realidade, desmente-se, de certa forma, a fala de Phil no início do filme que as imagens nunca mostram o que se viu, e, ainda que aquela já não seja mais a casa da suposta avô, a casa é a mesma, surpreendentemente a mesma, num mundo surpreendentemente outro. Assim, como serão outros Alice e Phil, e a imagem que construímos deles, ao acompanhá-los pelo filme até o belo plano final no qual o filme os devolve à terra e se perde no céu.

Cesar Zamberlan

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