Ano VII

Entrevista

quarta-feira nov 30, 2011

Frederico Machado: diretor, distribudor, produtor, montador...

Frederico Machado é um guerreiro. O homem por trás da Lume é incansável, respira cinema 24 horas por dia e trabalha em todas as frentes possíveis, tal como um polvo agitando seus tentáculos para controlar um pequeno mundo de sonhos e desejos.

Distribuidor, dono de locadora, produtor, diretor, montador, fotógrafo, curador de festival, Frederico é uma espécie de Don Quixote do cinema tupiniquim.

Com a Lume, ampliou e diversificou o catálogo de lançamentos em home video no Brasil com obras de diretores fantásticos como Losey, Fassbinder, Chabrol, Mizoguchi, Ferreri, Buñuel e muitos outros. Com o braço de lançamentos cinematográficos de sua distribuidora, experimenta a falta de filmes fenomenais do atual panorama mundial. Mas não desiste. Criou um festival internacional para buscar novos ares, novas experiências cinematográficas.

Nesta entrevista, Frederico fala de seu novo filme, O Exercício do Caos, primeiro longa maranhense da história, da falta de coragem e liberdade do cinema mundial, da dificuldade de se filmar num estado artisticamente abandonado pelos poderes públicos, e, obviamente, de sua paixão por cinema.

Sérgio Alpendre

 

O diretor no set de filmagem

 

Como é fazer um longa sem incentivo fiscal dentro de uma cinematografia que parece muito dependente desse tipo de fomento, e ainda num estado sem tradição na produção de filmes?

Complicado. Apesar de ser um filme muito pequeno, temos uma série de dificuldades enormes. Equipe reduzidíssima, elenco que ajuda como assistentes de produção, falta de incentivo e patrocinadores. Por outro lado, nos leva a criar mais, com um roteiro feito durante o processo de filmagem. Funcionando quase como um coletivo. O filme está sendo um próprio exercício de cinema, livre de fórmulas e sem medo de arriscar.

Você tem alguma esperança que seu longa-metragem ajude a fomentar a produção de outros longas no Maranhão, estado que raramente figura entre produtores de cinema?

Essas esperanças existem, mas sabemos que não funciona dessa forma. Acredito que tenha que haver leis de incentivo próprias para o cinema no estado, escolas de cinema, festivais, cinemas que exibam filmes de outras cinematografias sem ser apenas a americana. O fato de fazermos um longa, com verdade, disposição e amor, talvez faça aparecer algumas pessoas que vão ver que é possível fazer isso. Entretanto, a estrutura ainda é mínima, e sem ela, é um exercício caótico e uma luta insana para se fazer cinema no Maranhão.

Thalyta Sousa em O Exercício do Caos

Este é o primeiro longa maranhense. Como você vê o cenário dos curtas maranhenses, e como vê essa recente efervescência (com o fortalecimento da Lume e o surgimento da Petrini filmes) no Maranhão e em outros estados do Nordeste?

O cinema maranhense existe devido a luta de poucos realizadores. É uma cinematografia escassa que viveu nos anos 70, com o Super 8, um período forte de tentativa de se fazer cinema. A Lume existe pelo esforço pessoal meu e de nossa equipe. O Maranhão, apesar de ter duas distribuidoras de cinema no Brasil, ambas trabalhando com filmes autorais, é um estado que não incentiva a arte. Acredito que seja um dos poucos estados do país em que não há leis de incentivos e há pouquíssimos concursos e editais para o cinema.

Sobre o que é O Exercício do Caos?

O Exercício do Caos é sobre a rotina de um homem e suas três filhas, no interior do Maranhão. Desejo, morte, loucura, tentações. Um filme em que haverá poucos diálogos, inicialmente planejado para ter uma relação direta com o teatro e a pintura.

Como foi a captação? Você pretende fazer transfer, caso tenha sido em digital?

O filme está sendo todo captado com uma câmera Canon Rebel T2i. A ideia é fazer transfer, mas temos ainda que analisar o seu custo final e sua possibilidade de distribuição. Não é um filme pensado para o mercado. Embora acredite que o público tenha o poder, o dever e a necessidade de complementar o filme.

Quem está no filme (atores, montador, fotografia…)?

A equipe toda do filme é composta por cinco pessoas e o elenco, seis. Filme mínimo. Faço a produção, fotografia, montagem e direção. O roteiro foi uma ideia minha e está sendo desenvolvido durante a própria filmagem. As filmagens ocorreram em dez dias, com uma imersão total no trabalho. Como falei anteriormente, é um coletivo de cinema patrocinado e idealizado pela Lume. A intenção é se fazer dois longas por ano.

Fale um pouco das referências que você trouxe para o longa.

Tarkovski, sem dúvida. Béla Tarr. Cinema polonês. Filmes de terror psicológico. Mas acredito que fizemos um filme com a nossa verdade e livre, original.

Tarkovski no sertão maranhense, distante da geografia gélida em que o diretor russo costumava trabalhar, pode resultar numa combinação interessante. Seu curta, Vela ao Crucificado, tinha também algo de Tarkovski, e algo da relação familiar que você parece querer explorar com este longa. Fale um pouco sobre essas relações entre o curta e o longa e entre Tarkovski e seus filmes.

O cinema russo, assim como a literatura, russa sempre me interessou. Acredito que tenha uma densidade psicológica inigualável. Tarkovski foi um gênio. Entretanto, com o início das filmagens, percebi que, como de fato é um filme coletivo, é natural que se trace sempre um caminho novo. O papel do diretor é ser um coordenador dos pensamentos da equipe e defini-los pelo prazer que lhe dá e pela verdade que quer passar com o filme. Meu traço estará no filme, mas também o de todos que se envolveram com o trabalho. Com relação à questão familiar, o filme é duro, pois acredito que as questões existenciais passam sempre pela vida em família, pela solidão que todo ser humano conhece e pela finitude de tudo.

Você falou em cinema polonês e terror psicológico, presumo que as principais referências sejam os filmes de terror de Polanski, Repulsa ao Sexo, Bebê de Rosemary e O Inquilino. Existe mais alguma? Talvez Tess ou Macbeth?

Com certeza os filmes de início de sua carreira, como Cul De Sac ou Faca na Água.  Mas agora vendo as cenas filmadas, percebo a estranheza de um Herzog em seus trabalhos mais experimentais. Mas é um trabalho dificílimo, realizado com uma produção mínima e com uma série de dificuldades. Com toda a honestidade, não sabemos que rumo o filme levará, mas está sendo um processo extremamente instigante e belo. Coloco todo meu desejo de realizar cinema com seriedade nas mãos de um pequeno grupo de sonhadores como eu.

De que maneira a acumulação de várias funções (coordenador de um festival de cinema, distribuidor de DVD, distribuidor de cinema…) pode atrapalhar, ou beneficiar, a realização de seu filme?

Eu não costumo separar minhas atividades. É uma coisa interessante que percebo agora. O meu ato cinematográfico, o meu fazer cinematográfico se dá de forma plena acumulando essas diversas funções: diretor, produtor, montador, roteirista, fotógrafo, organizador de festival, exibidor, distribuidor e espectador. A sorte que tenho é que à minha volta existem pessoas que me dão um suporte enorme para conseguir achar tempo para fazer tudo que está sendo possível realizar.

Como você vê a questão da exibição digital?

Uma incógnita total. Como distribuidores, estamos sofrendo com essa falta de certeza de qual empresa trabalhará com qual cinema. Para o realizador é uma vantagem, pois se torna mais barato o processo de finalização dos filmes.

O que falta ao cinema brasileiro? E ao cinema mundial?

Mais coragem, mais liberdade, mais vontade de se criar, mais seriedade. Há exceções, mas de modo geral o cinema atualmente está desanimador. Essa questão comercial do cinema sempre existiu. As fórmulas de se fazer bons filmes comerciais sempre existiram. Mas atualmente essas fórmulas não se renovam e há muito mais estupidez no mundo do que existia há um tempo.

Para terminar, fale um pouco sobre a experiência com o Festival Lume Internacional de Cinema, e sobre o que planeja para a próxima edição.

O Festival, assim como o nosso longa, a distribuidora, o livro, é uma extensão da minha vida, dos meus braços. Cinema é minha vida. E a experiência com o festival foi maravilhosa. Nunca assisti a tantos filmes que nunca chegariam no mercado brasileiro ou até mesmo em Festivais maiores no Brasil. Vivi momentos de horror, drama, felicidade e vi que as pessoas próximas a mim são uma base para que eu possa crescer. E acredito que temos como crescer muito no próximo ano, aumentando a equipe e fazendo do festival uma referência de projeto artístico forte para a cidade de São Luís e para o país.

 

* Entrevista concedida por email, durante as filmagens de O Exercício do Caos, para Sérgio Alpendre e Heitor Augusto.

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