Ano IV

Segredo da câmara escura

sexta-feira fev 24, 2017

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O Segredo da Câmara Escura (Le Secret de la Chambre Noire, 2016) de Kiyoshi Kurosawa

No início, a espera. A lenta sensação de descoberta de um universo novo. O jovem Jean entra em uma mansão antiga e imponente. Enquanto aguarda ser chamado para uma entrevista de emprego sozinho na antessala ele vê uma mulher em uma espécie de transe, com vestimentas do passado, vagando pela casa. Uma porta se abre e o jovem segue para o outro cômodo para observar o local. A câmera enquadra-o e cautelosamente, como que tateando aquele ambiente, como se entrando naquela casa pela primeira vez junto de Jean, o segue para outro cômodo. Após alguma espera ele é chamado pelo dono da mansão, o fotógrafo Stéphane, e aceito para o novo trabalho como seu assistente. A mulher em questão é Marie, filha e modelo fotográfico de Stéphane. Ele trabalha obsessivamente com daguerreótipos, antiga técnica fotográfica que registra retratos diretamente sobre uma placa de cobre, resultando em uma distinta impressão, quase viva, da imagem fotografada.

Importante descrever o início de O segredo da câmara escura pois, fatos narrativos e desdobramentos à parte, nele já está contido o tom e a disposição formal sobre a qual Kurosawa irá desenvolver seu filme. Não estamos diante, por exemplo, do terror intenso de Pulse (2001), embora o sobrenatural esteja presente, porém mais próximos ao igualmente notável Cure (1997), ambíguo e desafiador até o último plano exacerbando uma sensação falta de ar angustiada que só se intensifica mediante à proximidade do fim. Aqui o mistério é desenvolvido sob o tensionamento paciente de um prenúncio de desastre – a calma com que os fatos são desenvolvidos se traduzem diretamente em sua construção formal. A extrema maturidade do cineasta japonês o permite esmiuçar e ir além daquilo que já havia atingido na obra-prima de 2015 Para o outro lado: o rigor de seus planos gerais, sua encenação explorando a unidade do plano e construída através da luz se unem ao caráter retilíneo e incisivo da progressão dramática de Creepy, filme de 2016.

É a partir de um severo controle formal que Kurosawa permite abalar as próprias estruturas. Da história, há o aproveitamento da constante aproximação entre os dois mundos, dos vivos e dos mortos, do agravamento da sensação de aprisionamento e da loucura progressiva gerada por Stéphane em sua obsessão de atingir a perfeição da captação em seu daguerreótipo, e de como esse sentimento resvala em todos atuantes naquele universo – sua filha Marie, o assistente Jean que enlouquece ao passo que se apaixona pela garota, e a falecida esposa ainda atormentada por aquele mundo. Do tratamento formal dado a narrativa, há uma aplicação desse tensionamento exposto elevado a um extremo em que o mergulho no desconhecido se traduz em uma constante sensação de desespero frente a iminência de desabamento da ordem instaurada e rompimento de qualquer divisão entre sanidade, mundo terreno e sobrenatural.

Retornamos à descrição do início e aquela sensação de revelação paciente do ambiente apresentado em determinado momento torna-se insuportável a ponto do rompimento e do choque serem violentamente repentinos: o filme já possui uma duração considerável no instante em que aquela quietude se danifica e em um longo plano o corpo da garota é atirado brutalmente escada abaixo. Um a um os personagens vão sucumbindo em conjunção aos dois mundos que partem suas fronteiras já fraturadas e se inserem uns nos outros de modo a intensificar a queda de todos – como a alma da pessoa que acreditava-se aprisionada na impressão gerada pelo daguerreótipo e suplicava por liberdade.

Kurosawa não está interessado em somente expor um universo esfumaçado e explorar aspectos sombrios e atmosféricos desse ambiente acentuando um procedimento formal de clima e sensações. Sua forma parte de premissa semelhante mas vai muito além. Cineasta preocupado sobretudo com a cena que é, procura muito mais afetar essas estruturas bem alicerçadas e esgarçar essa proposta atmosférica de mistério para, a partir dela, perfurar a teia milimetricamente construída do plano e expor as cicatrizes em um movimento objetivo e constante de desmonte de suas peças sujeitas à estrutura dramática total. Em um movimento consciente Kurosawa praticamente desenvolve um laboratório cênico em que se sujeita frontalmente aos limites de sua própria forma e suas quebras: o corpo já citado que desaba escada abaixo, o carro que perde o controle na estrada e se acidenta, os tiros desesperados mais próximo do final.

É ao mesmo tempo assustador e fascinante notar o percurso psicológico do protagonista invadido sobretudo por aspectos materiais das relações e por situações concretas, enquanto Stéphane é atormentado pelo metafísico, pelo espectro de sua falecida mulher. Jean cede à ganância de um golpe no chefe e do faturamento de uma grande quantia de dinheiro resultante da venda da mansão, ao mesmo tempo que sonha escapar daquele aprisionamento em uma perspectiva de um futuro melhor junto de Marie. Kurosawa encara aquele microcosmo da mansão e o expõe, permitindo que seja lentamente invadido pelo exterior da cidade ao seu redor, pelos seres que não participam internamente daquele processo, aproximando-se como pragas sob as negociações de venda do imóvel e o desejo de lucro. Sabiamente, o comentário contemporâneo e as relações econômicas desveladas em tela não suprimem o drama pois estão a serviço dele, distanciado o realizador de um cinema frágil de premissa, cheio de boas intenções sociais, políticas, antropológicas, mas que em seu interior há somente o abismo da falta da própria matéria cinematográfica com a qual deveria se digladiar.

Não há desvios dentro da prolífica trajetória do diretor em O segredo da câmara escura, filme este que se alicerça na experiência do realizador e em sua posição como grande cineasta em uma importante filmografia, erguendo-se sob a égide da encenação como mais uma prova de sua magnitude.

Rafael Dornellas

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